Crônica da Semana

Dinha da Silva

 

Cidinha da Silva é mineira, prosadora, dramaturga e editora. Criadora de 15 obras autorais, destacando-se a Série Melhores Crônicas de Cidinha da Silva volumes 1 e 2 (2019); Um Exu em Nova York (contos, 2018); O homem azul do deserto (crônicas, 2018) e # Parem de nos matar! (crônicas, 2016).

Organizou dois livros fundamentais para o pensamento sobre as relações raciais contemporâneas no Brasil, Ações Afirmativas em Educação: experiências brasileiras (ensaios, 2003, 3ª reimpressão) e Africanidades e Relações Raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (ensaios, 2014, esgotado). 

Tem textos publicados em espanhol, francês, catalão, italiano e inglês. 

16/02/2019

Sobre ext(r)ermínio de pessoas (negras) e assassinato de cachorro

Por Cidinha da Silva

Alto lá, sabidão! Ninguém naquela pracinha de notícias estava se comparando a um cachorro para ser alçado ao posto de gente. Você não entendeu nada.

As pessoas, do lugar de perplexidade causado pela dor, pelo abandono total, pelo desvalor, perguntavam-se indignadas por que as pessoas ladram por um cachorro assassinado a pauladas e não latem (nem um latidinho Extra)  contra o extermínio de humanos negros em série, à luz do dia, na calada da noite, no lusco-fusco nos bares de periferias, em vielas, becos e escadões; dentro de casas, dentro de escolas, dentro de igrejas.

Por que, como nos indagou a grande pensadora do nosso tempo e da nossa morte, e da nossa vida tirada por tantas modalidades de mata-leão, Denise Ferreira da Silva: “por que a morte das pessoas negras não causa uma crise ética?”

A premiada revista O Menelick 2º Ato dedicou-se a responder essa questão na edição zeroXX. Muitas pessoas foram convidas a refletir sobre o tema, fui uma delas e produzi o texto #Parem de nos matar! - memória da luta de pessoas negras comuns para se manterem vivas.

Diante do assassinato de Pedro Gonzaga, jovem negro imobilizado, pelo segurança Davi Ricardo Moreira, bolsonarista confesso, agente se segurança privada treinado para matar negros, o que tenho a dizer foi dito no texto que transcrevo abaixo e nas 72 crônicas do livro # Parem de nos matar!, de 2016. O mais é dor, medo, vigilância e luta constante pela vida e para deixar de contar nossos mortos.

A questão-motriz deste ensaio é: por que as mortes de pessoas negras e violências raciais contra elas não provocam uma crise ética? O contexto sócio-histórico da pergunta poderia ser o Brasil, a Diáspora Africana, África ou mesmo o mundo e a resposta não sofreria variações significativas.

A parte mais óbvia do problema é que em decorrência de questões históricas ligadas à exploração de seres humanos por outros, o corpo negro foi constituído como um corpo de menos valor, de fácil reposição, tranquilamente substituível. Um corpo também, mutilado de maneira impune para atender a adestramentos sociais necessários à manutenção do poder explorador. Um corpo ignorado, quando conveniente, para reforçar sua menos-valia por meio da negação da condição de corpo-humano.

Cada um dos três argumentos acima pode ser exemplificado. Vamos então fortalecê-los e torná-los mais nítidos. Ainda no período escravocrata os corpos negros eram punidos, vilipendiados, torturados e mutilados, porque podiam ser substituídos com facilidade. As surras naquele período eram constantes para adestrar os corpos negros, assim como as ameaças policiais de hoje, aos primeiros suspeitos em qualquer situação.

Quanto ao corpo negro ignorado, é fácil percebê-lo na fila de acesso aos locais de arte e cultura, nos quais a maioria dos frequentadores é branca e estes sequer pedem licença a uma pessoa negra para passar à sua frente. Também são desconsiderados os corpos negros de pessoas em situação de rua, mortas pelo frio de São Paulo e tratadas como parte da paisagem urbana, como aquelas que morrem pelo frio mesmo (como se fosse aceitável alguém morrer de frio), “sem sinais de violência no corpo”.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de minha autoria, documenta em forma de crônicas e textos opinativos, aquilo que não pode ser esquecido e que pretende robustecer uma ética do cuidado das pessoas negras consigo mesmas (por meio do registro crítico de sua memória). Esta é a contribuição da obra em suas 240 páginas e 72 crônicas, para alterar esse estado de coisas.

Trata-se de um livro vivo, em movimento, que frequentemente depara-se com parentes e amigos de pessoas negras assassinadas e/ou desaparecidas e, não raro, esses encontros causam constrangimento e impotência à autora, como aconteceu num curso no SESC Ribeirão Preto (SP). Lá esteve presente a irmã de Luana Barbosa, jovem lésbica negra, morta em decorrência de espancamento perpetrado pela polícia, porque resistiu para não ser revistada por homens. Ou o encontro com Ruth Fiúza, mãe de Davi Fiúza (desaparecido pela PM baiana em 2015 numa periferia de Salvador), em mesa promovida pelas Mães de Maio (SP) na reitoria da Universidade Federal da Bahia (maio, 2017).

A pergunta que arrebenta os miolos é: o que fazer diante das pessoas que sobreviveram a mortes e desaparecimentos tão aviltantes? E a resposta possível até o momento tem sido: prosseguir, via literatura, no exercício de agenciamento de uma produção de sentidos sobre nós mesmos.

Uma agência que não nos deixe esquecer quem somos, de onde viemos e para onde vamos como membros de uma mesma comunidade de destino. Desse modo, Cláudia da Silva Ferreira, arrastada num porta-malas de viatura policial em Madureira (RJ), não é única, não é um caso isolado, somos todas Cláudias. Tanto porque, como mulheres negras, estamos expostas ao mesmo destrato dado a ela, quanto porque todas nós fomos efetivamente arrastadas durante o martírio de Cláudia da Silva Ferreira.

O já mencionado livro, #Parem de nos matar! exigiu abertura de janelas para nuançar sua dureza e para que o leitor pudesse respirar. Fiz isso ao alternar conjuntos de textos que escrutinam situações de violência e extermínio e outros que demarcam de alguma forma a resistência das pessoas-alvo do racismo.

O livro é aberto por um bloco de textos que tratam do extermínio do povo negro no sentido alargado, não só da morte física. Passam da vida que é retirada à vida que sobrevive, mas não conta, não importa, como a vida das 276 meninas sequestradas pelo Boko Haram para fins sexuais, no interior da Nigéria e os 2.000 mortos em uma única cidade, também assassinados por esse grupo islâmico-fundamentalista durante três ou quatro dias, enquanto os olhos do mundo estavam totalmente voltados para os atentados ao jornal Charlie Hebdo, na França. Assassinatos de jovens negros gays, segundo testemunhas, executados por grupos neo-nazistas, mas tratados pela polícia como suicídio. Dimensões raciais da perseguição aos Rolezinhos nos shopings de São Paulo e de todo o Brasil e discussão da política de confinamento destinada a certos grupos sociais x direito à cidade. Duas chacinas imortalizadas no início de 2015, a dos doze meninos e homens no Cabula, Salvador, legitimada pelo governador de plantão como “gol de placa da polícia” e os meninos do Morro da Lagartixa, no Rio de Janeiro, fuzilados por 111 tiros. Em setembro de 2017 a polícia paulistana conseguiu superar a marca carioca e matou 10 homens com 140 tiros no bairro Morumbi. O bloco finaliza com uma crônica sobre os que juntam vinténs na microeconomia do carnaval soteropolitano.

A seguir, um grupo de crônicas amplifica vozes dos movimentos de mulheres negras e de Luiza Bairros, uma de nossas grandes lideranças, em dois momentos, como ministra do primeiro Governo Dilma e numa homenagem desta autora, por ocasião do passamento da ativista em julho de 2016.

O bloco seguinte é bem movimentado e trata de aspectos diversos da morte simbólica imposta aos negros pela programação da TV aberta brasileira, principalmente a Rede Globo, mas o grupo começa pelo refresco afirmativo representado pelo casal odara do seriado Mr. Brau, Michelle e Brau.

O próximo grupo de crônicas aborda a presença/participação das pessoas negras no movimento preparatório ao golpe político-jurídico-midiático, os anacrônicos negros de direita, e também dos que estiveram na resistência democrática, com destaque para os funkeiros que fizeram um baile de favela nas areias de Copacabana, para gritar que a juventude funkeira e negra era também a juventude universitária e os golpistas queriam barrar aquela ascensão.

Na reunião de textos seguinte, mais racismo na TV e nas redes sociais com áreas de respiro trazidas pelo garoto negro e brasileiro, Matias Melquíades, e seu diálogo com Jhon Boyega, ator negro que representou um papel no filme Star Wars, por meio do boneco negro de seu personagem, encalhado nas lojas e escolhido pela identificação racial de Matias.

Temos na sequência, mais um bloco duríssimo. São abordados alguns assassinatos individuais que ganharam espaço na mídia por motivos diversos: grau absurdo de violência que escandalizou a todos; mobilizações populares em torno do caso; pessoas de certa visibilidade pública. A crônica, Quanto mais negro, mais alvo, um texto duro na abordagem temática, mas de certo lirismo na forma encerra o bloco.

Os três conjuntos de textos seguintes tratam de juventude e educação, notadamente das escolas de ensino médio ocupadas pelos adolescentes que nelas estudavam; textos sobre  letramento racial discutindo casos emblemáticos vivenciados por protagonistas brancas e uma longa exegese sobre a morte do ator Antonio Pompêo; crônicas sobre manifestações racistas no futebol.

Finalmente, surge o bloco do pescoço fora d’água, textos com alguma poesia para respirar e recompor o espírito. Não porque o livro deva terminar em “festa”, mas porque não podemos perder a esperança e porque insistir na poesia e nos horizontes faz parte da promoção da humanidade mais profunda e do combate mais rotundo ao racismo.

Quando decidi publicar o livro #Parem de nos matar!, defini também a publicação do Canções de amor e dengo, livro de poemas cometidos ao longo da vida, já que não sou poeta. Fiz isso para que o segundo amenizasse o primeiro e para poder falar menos sobre o #Parem, evitando assim a visita àquelas narrativas das dores incuráveis dos assassinatos e desaparecimentos de pessoas amadas.

Outra estratégia foi sempre convidar pessoas para comentarem o livro, o que também aliviava a necessidade de que eu falasse sobre ele. Passados nove meses de trabalho de divulgação e circulação, porque um livro independente ou publicado por editora pequena deve ser continuamente trabalhado para que venda, já consigo falar mais da obra pela leitura dos textos, o que é mesmo o mais indicado, haja vista que o texto literário deve falar por si mesmo.

E com uma crônica do livro, Quanto mais negro, mais alvo!, quero encerrar este ensaio como síntese propositiva.

Quanto mais negro, mais alvo!

Em verso genial do poema “Rondó da ronda noturna”, o poeta Ricardo Aleixo nos conta que “quanto mais negro, mais alvo”. Como na letra de “Haiti”, de Caetano e Gil, “Rondó” contém doutoramentos inteiros. Teses completas sobre a assimetria das relações raciais no Brasil. É o poder de síntese e de expansão da arte.

Engana-se quem pensa que somos vítimas de racismo, somos alvo do racismo, como disse Carlos Moore há décadas, antes de conhecer Ricardo, que por sua vez o disse em 1999, também sem conhecer o Carlos. Existia então, em ambos, o poeta e o antropólogo, compreensão similar desse fenômeno que mata a gente negra, como matou Amarildo da Silva, Cláudia Ferreira, Patrick Ferreira de Queiroz, Douglas Rafael, o DG, e desapareceu a Davi Fiúza, entre milhares de outros homens, jovens, mulheres e crianças negros que não tiveram seus nomes divulgados e são executados pela polícia dia após dia.

Quanto mais negro, mais alvo, só seria dito assim por um poeta. Quanto mais negro, mais visível. Visível por ser alvo, por ser buscado em qualquer lugar, em qualquer classe social, em qualquer situação, seja como Rafael Braga Vieira, morador de rua, preso durante as manifestações de junho de 2013, como se terrorista fosse, por carregar na mochila um vidro de desinfetante e outro de água sanitária. Condenado a cinco anos e dez meses de prisão. Durante dois anos, o único preso remanescente das manifestações daquele inverno.

Seja como Thamires Fortunato, estudante da UFF, que durante manifestação contra o alto custo do transporte público no Rio de Janeiro no verão de 2015, foi covardemente imobilizada no chão e algemada, depois de ter tido a blusa arrancada e ter sobre si um brutamontes da polícia, paramentado para a guerra, tratando-a como bandido de periculosidade comprovada.

Seja como a farmacêutica e doutoranda em Bioquímica Mirian França, mantida presa por 16 dias no Ceará sob acusação de assassinar uma turista estrangeira com quem fizera contato num sítio de mochileiros. Presa porque apresentou contradições em depoimentos à polícia, tais como o número de cafezinhos que a vítima, Gaia Molinari, teria tomado enquanto estiveram juntas. Mirian foi carimbada como principal suspeita da morte de uma pessoa abatida por pancadas fortíssimas e que lutou para se defender. E ela, a suspeita, de compleição física frágil, não apresentava qualquer marca de luta corporal.

Quanto mais negra, quanto mais consciente e senhora de si, mais alvo, como Lília de Souza, jornalista baiana, cujo cabelo black power foi rejeitado por um sistema de renovação de passaporte, obrigando-a a prendê-lo com uma borracha de escritório para que sua imagem fosse aceita.

Quanto mais negro, quanto mais melanina, mais alvo. Quanto mais negro, quanto mais negros juntos, mais alvo, mais Auto de resistência. E nessas horas, estamos sós, desprotegidos e sós. Só depois, se sobrevivermos ao susto e à violência, a poesia nos acalentará.

 

25/01/2019

Quem disse que o ano só começa pra valer depois do carnaval?

Quando passo a vida em revista, me dou conta de que nunca fez sentido para mim a balela de que o ano só começa depois do carnaval. É assim também para outras pessoas além de mim. Famílias assalariadas e operárias não costumam ter sobras no orçamento para viagens de férias, assim, o mês de janeiro é simplesmente um mês sem aulas e nem sempre divertido para quem gosta de estudar e fica sem opção de biblioteca escolar no período.

Famílias que garantem o sustento com o trabalho autônomo, do mesmo modo não param nos meses de férias que precedem o carnaval e a depender da atividade econômica exercida, trabalham ainda mais.

Desde que comecei a escrever profissionalmente, o intervalo entre Natal e Ano Novo e os meses de janeiro e fevereiro são muito produtivos. É um período de desenhar projetos, iniciar alguns e concretizar outros tantos.

Neste 2019, que os búzios de muitas casas dizem ser regido por Ogum, comecei bem. Concluí dois livros e uma loja virtual que reúne todas as minhas publicações. Mais surpresas estão a caminho, por ora, falemos da Série Melhores Crônicas.

 Passados 13 anos ininterruptos de publicações e 8 livros de crônicas espalhados pelo mundo, um olhar retrospectivo permite mapear temas e contextos muito presentes em minha obra.

As africanidades, a orixalidade, as tensões e diálogos entre tradição e contemporaneidade são os motores do primeiro volume, Exuzilhar, verbo-neologismo que criei em 2010, depois de compreender que o verbo “encruzilhar” poderia ser ainda mais complexo.

O segundo volume, chamado Pra começar, destaca crônicas próximas ao universo de crianças e adolescentes e outros em que pessoas dessas faixas etárias são protagonistas. São textos que pretendem despertar o gosto pela leitura.

Livros como Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! (2008), Oh, margem! Reinventa os rios! (2011) e Racismo no Brasil e afetos correlatos (2013) estão esgotados e não há planos para reimprimi-los. A Série Melhores Crônicas será uma oportunidade de revisitar esses trabalhos, selecionar textos que ainda têm vitalidade e merecem ser lidos por um público mais abrangente.

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